segunda-feira, 14 de julho de 2014

O sonho da casa própria e a vida real

O sonho da casa própria e a vida real

Por: Ana Gabriela e Emily Costa

Há 17 anos vivendo na comunidade Monte das Oliveiras, a dona de casa Sebastiana Damasceno, de 42 anos, não se imagina morando em outro lugar. Foi na casa simples, de  chão de cera e tijolos aparentes que morou pela primeira vez longe dos pais, teve seus cinco filhos e enfrentou o luto quando seu companheiro de 46 anos morreu vítima de um acidente de trânsito.
Como muitos brasileiros, Sebastiana mantém um laço afetivo com a casa onde mora. Segundo a última Pesquisa Nacional de Amostra Domiciliar (Pnad/IBGE) realizada em 147 mil domicílios brasileiros, no ano de 2012, cerca de 75% dos domicílios do país possuem dono efetivo. Contudo, embora o percentual seja elevado, os outros 25% enfrentam todas as dificuldades e inseguranças de quem não possui um teto fixo.
Nas grandes cidades está a maior parte deste percentual. Amontoados nos grandes centros, misturam-se os sem teto e os moradores de rua, uma face ainda mais problemática para uma parcela de brasileiros que invade terrenos desocupados, num movimento crescente chamado de invasão e responsável pela criação dos aglomerados urbanos à revelia de qualquer assistência do poder público.
Em Roraima essa história é antiga, sobretudo, em períodos eleitorais. Na capital, Boa Vista, existe a chamada “indústria da invasão”, comum às grandes cidades, onde é corriqueira a venda dos lotes. Tal fato não ocorreu no Monte das Oliveiras, às margens da BR 174, próximo à ponte sobre o Rio Cauamé, garantem os habitantes, e no meio de tantas desigualdades, ainda é possível ver nos olhos dos moradores o real valor que uma casa possui.
É algo abstrato que ultrapassa a necessidade de possuir um título, um documento que comprove a posse da terra. É um laço tal qual o que Sebastiana tem com a casa onde vive e que vai muito além das cercas de madeira que marcam o terreno e do cuidado quem com o jardim que cultiva na frente da sua casa, o seu lar.
“A primeira casa que tive na vida foi essa”, conta, apontando para a residência de alvenaria. “Eu vim para cá quando ainda tinha 25 anos, hoje tenho 42. São quase duas décadas vivendo aqui, nesta casa que hoje é meu o lar, o meu lugar no mundo”, narra. 
Sebastiana é clara, uma casa vai além dos muros, além do teto. Ela é um abrigo onde se vive, onde se contam histórias. O nascimento dos filhos, seus primeiros passos, o dever de casa, a formatura, as brigas, reconciliações e, sobretudo, os sonhos. São essas vivências que fazem com que uma casa seja chamada de lar e é isso que passa a ser tão caro para os moradores do Monte das Oliveiras. 
Assim como a história da dona de casa, é a da autônoma Lucia Costa, de 30 anos. Nascida em Pacaraima, ela se mudou para o Monte das Oliveiras junto com o marido porque precisava arranjar um emprego. Quando chegaram ao local, viveram por três anos em uma casa de madeira. Mas hoje, quatro anos depois, estão, aos poucos, erguendo uma residência bonita, com vários cômodos, paredes de alvenaria e até telhas de zinco. Para o casal que tem quatro filhos, o sonho é um só: levar uma vida mais confortável, morar em uma casa grande, clara, e, um dia quem sabe, até poder pendurar os quadros dos filhos sorridentes nas paredes do lar.
“Eu acho que a gente não sai mais daqui, porque já faz bastante tempo. Tem mais de, acho que doze anos, que ela [Sebastiana] mora aqui no Monte, se fosse para nos tirar daqui, acho que já teriam tirado. Claro que ainda temos medo, mas esperamos que as autoridades resolvam e regularizem a nossa situação”, explica Lúcia.
O Monte das Oliveiras se tornou o aconchego de cidadãos como Sebastiana e Lúcia. Esposas, mães e mulheres que no dia a dia enfrentam a insegurança de viver e construir um lar em um espaço que, oficialmente, não lhes pertence. Um lugar que é propriedade de alguém distante, um dono sem nome que, assim como um vilão de contos de fadas, aparece de vez em quando e assusta os moradores que não têm mais para onde ir.
“Alguns preferem nem pensar sobre o que pode acontecer. Outros afirmam que não tem medo, porque conseguiram a terra lutando e comprando os lotes de outros donos. Tá certo que foi de uma forma irregular, mas foi comprado. Deram dinheiro”, esclarece Sebastiana, supondo que, se fosse retirada do local, não saberia onde viver. “Não teria para onde ‘correr’. A casa dos meus pais não tem mais. Aí não teria mesmo para onde ir. Tem que ser aqui mesmo”, encerra.

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