O sonho da casa
própria e a vida real
Por: Ana Gabriela e
Emily Costa
Há 17 anos vivendo na comunidade
Monte das Oliveiras, a dona de casa Sebastiana Damasceno, de 42 anos, não se
imagina morando em outro lugar. Foi na casa simples, de chão de cera e tijolos aparentes que morou
pela primeira vez longe dos pais, teve seus cinco filhos e enfrentou o luto
quando seu companheiro de 46 anos morreu vítima de um acidente de trânsito.
Como muitos brasileiros,
Sebastiana mantém um laço afetivo com a casa onde mora. Segundo a última
Pesquisa Nacional de Amostra Domiciliar (Pnad/IBGE) realizada em 147 mil
domicílios brasileiros, no ano de 2012, cerca de 75% dos domicílios do país
possuem dono efetivo. Contudo, embora o percentual seja elevado, os outros 25%
enfrentam todas as dificuldades e inseguranças de quem não possui um teto fixo.
Nas grandes cidades está a maior
parte deste percentual. Amontoados nos grandes centros, misturam-se os sem teto e os moradores de rua, uma
face ainda mais problemática para uma parcela de brasileiros que invade terrenos
desocupados, num movimento crescente chamado de invasão e responsável pela
criação dos aglomerados urbanos à revelia de qualquer assistência do poder
público.
Em Roraima essa história é antiga,
sobretudo, em períodos eleitorais. Na capital, Boa Vista, existe a chamada
“indústria da invasão”, comum às grandes cidades, onde é corriqueira a venda
dos lotes. Tal fato não ocorreu no Monte das Oliveiras, às margens da BR 174,
próximo à ponte sobre o Rio Cauamé, garantem os habitantes, e no meio de tantas
desigualdades, ainda é possível ver nos olhos dos moradores o real valor que
uma casa possui.
É algo abstrato que ultrapassa a
necessidade de possuir um título, um documento que comprove a posse da terra. É
um laço tal qual o que Sebastiana tem com a casa onde vive e que vai muito além
das cercas de madeira que marcam o terreno e do cuidado quem com o jardim que
cultiva na frente da sua casa, o seu lar.
“A primeira casa que tive na vida
foi essa”, conta, apontando para a residência de alvenaria. “Eu vim para cá
quando ainda tinha 25 anos, hoje tenho 42. São quase duas décadas vivendo aqui,
nesta casa que hoje é meu o lar, o meu lugar no mundo”, narra.
Sebastiana é clara, uma casa vai além dos muros, além do teto. Ela é um abrigo onde se vive, onde se contam histórias. O nascimento dos filhos, seus primeiros passos, o dever de casa, a formatura, as brigas, reconciliações e, sobretudo, os sonhos. São essas vivências que fazem com que uma casa seja chamada de lar e é isso que passa a ser tão caro para os moradores do Monte das Oliveiras.
Sebastiana é clara, uma casa vai além dos muros, além do teto. Ela é um abrigo onde se vive, onde se contam histórias. O nascimento dos filhos, seus primeiros passos, o dever de casa, a formatura, as brigas, reconciliações e, sobretudo, os sonhos. São essas vivências que fazem com que uma casa seja chamada de lar e é isso que passa a ser tão caro para os moradores do Monte das Oliveiras.
Assim como a história da dona de casa, é a da
autônoma Lucia Costa, de 30 anos. Nascida em Pacaraima, ela se mudou para o Monte
das Oliveiras junto com o marido porque precisava arranjar um emprego. Quando
chegaram ao local, viveram por três anos em uma casa de madeira. Mas hoje,
quatro anos depois, estão, aos poucos, erguendo uma residência bonita, com
vários cômodos, paredes de alvenaria e até telhas de zinco. Para o casal que
tem quatro filhos, o sonho é um só: levar uma vida mais confortável, morar em
uma casa grande, clara, e, um dia quem sabe, até poder pendurar os quadros dos
filhos sorridentes nas paredes do lar.
“Eu acho que a gente não sai mais
daqui, porque já faz bastante tempo. Tem mais de, acho que doze anos, que ela
[Sebastiana] mora aqui no Monte, se fosse para nos tirar daqui, acho que já
teriam tirado. Claro que ainda temos medo, mas esperamos que as autoridades
resolvam e regularizem a nossa situação”, explica Lúcia.
O Monte das Oliveiras se tornou o
aconchego de cidadãos como Sebastiana e Lúcia. Esposas, mães e mulheres que no dia
a dia enfrentam a insegurança de viver e construir um lar em um espaço que,
oficialmente, não lhes pertence. Um lugar que é propriedade de alguém distante,
um dono sem nome que, assim como um vilão de contos de fadas, aparece de vez em
quando e assusta os moradores que não têm mais para onde ir.
“Alguns preferem nem pensar sobre
o que pode acontecer. Outros afirmam que não tem medo, porque conseguiram a
terra lutando e comprando os lotes de outros donos. Tá certo que foi de uma
forma irregular, mas foi comprado. Deram dinheiro”, esclarece Sebastiana,
supondo que, se fosse retirada do local, não saberia onde viver. “Não teria
para onde ‘correr’. A casa dos meus pais não tem mais. Aí não teria mesmo para
onde ir. Tem que ser aqui mesmo”, encerra.


Nenhum comentário:
Postar um comentário